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sexta-feira, 19 de junho de 2009

AS SECRETARIAS DE ESTADO E OS LIVROS

Por Luiz Carlos Amorim (Escritor – http://br.geocities.com/prosapoesiaecia )

Parece que o escândalo da compra dos 130.000 livros pela Secretaria de Estado da Cultura esfriou, caiu no esquecimento. A polêmica que se formou foi quase que exclusivamente sobre o fato de o livro ter sido classificado como impróprio para alunos do primeiro grau e pouco ou quase nada se falou sobre o gasto astronômico feito para comprar uma quantidade tão grande de livros de um mesmo autor, de uma mesma editora. Sem ter sido lido por quem autorizou a compra, pois eles foram recusados pelas escolas e recolhidos. Não entro no mérito da questão da qualidade da obra, insisto, sim, que deveria ter sido cobrado do Estado a responsabilidade pelo ato que resultou em prejuízo dos cofres públicos, o porquê da compra, já que nunca antes o Estado comprou livros selecionados para o vestibular para os alunos do segundo grau. E por que apenas um livro, por que não todos os selecionados?
E não é a primeira vez que isso acontece. Como já mencionamos, no ano passado a Secretaria de Estado da Educação comprou 34.146 maletas (fonte: Jornal A Comarca, de 10.10.08), cada uma com doze livros, da coleção Ziraldo e seus Amigos, da Editora Melhoramentos, dentro do projeto Planeta Cultura, lançado pelo Estado para as escolas estaduais de primeiro grau. Ótimo que esta quantidade enorme de livros tenha ido para as nossas escolas, ter o que ler é o primeiro passo para se adquirir o gosto pela leitura. Mas são 410.000 (quatrocentos e dez mil livros!), de autores consagrados e, se não me engano, apenas um catarinense. Não consegui saber o valor pago pelo Estado, mas deve ter sido mais do que o milhão e meio de reais pagos pelos 130.000 livros comprados mais recentemente.
Pergunto de novo: e os escritores catarinenses? Nunca houve verba, até agora, para comprar livros de escritores da terra para entregar às bibliotecas municipais catarinenses. Só este mês, depois de quase vinte anos da existência da Lei Grando, é que o edital para compra de livros de autores catarinenses para distribuição às bibliotecas de todas as cidades de Santa Catarina foi aberto pela FCC. E para compra de apenas 300 (trezentos exemplares) de dez obras a serem selecionadas pela Cocali, pela metade do preço de capa.
Falei com a professora Dirce Amarante, que teve acesso aos livros, no final de 2009, sobre o que ela achou da coleção, enquanto especialista em literatura. Pra começar, ela declara que “No final do ano passado, a Secretaria de Educação me cedeu com muito custo as tais maletas, as quais tive que devolver à Secretaria num curto espaço de tempo.
Analisei o material com os meus alunos de Letras e Pedagogia da UFSC. O resultado dessa análise está no artigo que escrevi para o "DC Cultura", “Planeta Cultura e a crise no ensino de Literatura”.
.Tenho a impressão que não houve reflexão intelectual quando da compra desses livros . Aliás, tenho a impressão que na Secretaria de Educação, como em outras secretárias, temos mais burocratas que pensadores. As maletas cumprem sua função burocrática, ou seja, renovar o material escolar, não importa com o quê.
Gostaria que esse assunto fosse discutido amplamente. Aliás, pergunto-me onde estão os professores das escolas que ainda não manifestaram a esse respeito?
Os educadores no Brasil, de um modo geral, também tratam a educação como tarefa, ou seja, muito mais como burocracia do que como conhecimento (em anexo, um artigo meu sobre o tema), de modo que as maletas preenchem bem esses requisitos: livros para todas as escolas, para idades específicas dos alunos, tudo bem "arrumadinho", para não causar problemas, nem maiores discussões.”
Transcrevo, abaixo, ainda, um trecho do alentado artigo da professora citado acima:
“Os livros das caixas destinadas às idades mais avançadas são claramente textos de auto-ajuda, como, por exemplo, Sucesso! Eu vou chegar lá...., de Frank McGinty, o qual dá algumas “dicas legais”, do tipo: “1. Use uma linguagem positiva –ela reflete e influencia seus pensamentos e, por conseguinte, seus atos. 2. Não pense em ‘problemas’, pense em ‘desafios’. Curta o desafio.” Um outro título dessas caixas devotadas ao final do ensino fundamental é: Sexo! Não é tudo na vida... Então por que só penso nisso o tempo todo?, de Antonio Carlos Vilela, cujo tema -- namoro, aids, gravidez, dentre outros -- é desenvolvido numa linguagem capaz de esfriar qualquer relação com a literatura: “Tomei um banho caprichado, limpando tudo direitinho, se é que vocês me entendem.” E o que dizer do livro Bagdá, o skatista, de Toni Brandão, cujo protagonista adolescente “trocou a carona da gata pelo bumba”.
Para citar um último exemplo do que se pode encontrar nessas maletas, tem-se O que eu faço da vida?, de Antonio Carlos Vilela, que discorre sobre a vida difícil dos adolescentes e lembra que “ser criança é muito mais fácil”, já que elas não sofrem por nada. Segundo Otto Maria Carpeaux, no entanto, o sucesso do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen reside, dentre outras razões, no fato de que o escritor pôde perceber que, para a criança, nem tudo é brincadeira sem conseqüência, como os adultos costumam pensar: "(...) as crianças são realistas a seu modo: a brincadeira lhes parece muito séria. Por isso gostam tanto dos contos de Andersen, porque ele também tomou a sério o mundo dos brinquedos.”
Há muita nebulosidade nestas compras. Ninguém será cobrado a respeito? O dinheiro gasto aos borbotões é o imposto que pagamos todo dia.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

LIVROS, EQUÍVOCOS E LANÇAMENTO DO EDITAL DA LEI GRANDO

Por Luiz Carlos Amorim (Escritor – http://br.geocities.com/prosapoesiaecia )


Tenho recebido e-mails e telefonemas de pessoas que têm lido o blog e estou feliz com a repercussão. Feliz e surpreso, pois não imaginava haver tanta gente ligada neste sítio. Vou transcrever o que uma amiga me enviou, pois ela revela outros gastos com livros que talvez não fossem os mais indicados para se comprar. Então, antes da compra milionária dos livros que foram recolhidos, já haviam sido feitas outras compras.
Essa Secretaria de Estado da Cultura parece ser especialista em comprar quantidades imensas de um mesmo livro – consequentemente de uma mesma editora. Por que será?
“Pois é, tanto São Paulo como SC, cometeram equívocos irreparáveis”, diz a minha amiga, “porque não lêem as obras antes de adquiri-las. Primeiro, se não lêem, não são leitores. Como teremos um Estado de leitores com dirigentes deste naipe? Só leitores fazem outros leitores. Gente que não lê não pode gerir a Educação.
Outra: Por que, tendo aqui no Estado cinco doutoras renomadas, altamente qualificadas, com notório saber, reconhecidas nacionalmente, estas não são chamadas para orientar os Projetos de Leitura da SE? Por que a Secretaria de Estado da Cultura não as chama, não as consulta? Os livros do Planeta Leitura, outro equívoco, são ruins, em sua maioria. (Minha amiga se refere ao projeto Planeta Leitura – Ziraldo e seus Amigos”, lançado há algum tempo pela Secretaria, que consistia na compra da coleção Ziraldo e seus Amigos, da Editora Melhoramentos, para alunos do primeiro grau da escola pública.)
Não entendo porque as pessoas qualificadas não são chamadas. Eliane Debus, Tânia Piacentini, Dirce Waltrick, Danúsia da Silva, Sueli Cagneti, estas especialistas deviam dar a consultoria para assuntos referentes à escolha de obras literárias. Elas têm que ser chamadas , caramba!!!!!
A Profa. Tânia Piacentini, inclusive, é votante da FNLIJ, a Instituição mais importante do país, no que diz respeito à indicação de obras apropriadas para crianças e jovens.
Gastaram uma fortuna com livros que serão escanteados sabe se lá para onde e, no entanto, essa gente não tem o tino de pagar por uma consultoria digna e segura, que evitaria um escândalo como este.”
Entendo perfeitamente a indignação, que não é só nossa. E já que estamos falando em livros comprados pelo Estado, aos milhares, transcrevemos a seguir o Edital da Cocali, que começa a cumprir, finalmente, a Lei Grando, ao selecionar dez obras para comprar 300 exemplares de cada por 50% do preço de capa:

Governo lança edital para aquisição de livros - 04/06/2009 – A Fundação Catarinense de Cultura (FCC) abre na segunda-feira, dia 8 de junho, o período de inscrições para o Edital de Aquisição de Livros – COCALI. Promovido pelo Governo do Estado, o edital vai selecionar e adquirir obras de autores catarinenses ou residentes há mais de dez anos em Santa Catarina. Serão selecionadas até dez obras, que terão 300 exemplares de suas tiragens compradas e distribuídas para bibliotecas públicas municipais. As inscrições são gratuitas, e estarão abertas entre 08 e 26 de junho. “A aquisição e a distribuição de livros são de grande importância para a difusão da literatura catarinense. Com esse edital, o Estado atua como um mediador entre nossos autores e a população, que muitas vezes tem pouco ou nenhum acesso aos bens literários”, afirma a presidente da FCC, Anita Pires. Os autores poderão inscrever mais de uma obra, mas somente serão aceitas inscrições de livros publicados entre 2004 e 2009. Também é necessária a apresentação de documento assinado pela editora autorizando o desconto de 50% no preço de capa para aquisição pela FCC, caso a obra seja selecionada no edital. As obras inscritas serão avaliadas e selecionadas pela Comissão Catarinense do Livro (COCALI), composta nove membros, representantes da Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esporte, Fundação Catarinense de Cultura, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), Academia Catarinense de Letras, Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, União Brasileira de Escritores / Santa Catarina, Câmara Catarinense do Livro, além de um renomado escritor. Os exemplares encaminhados para análise não serão devolvidos e, após a divulgação do parecer final da COCALI, passarão a integrar o acervo da Biblioteca Pública de Santa Catarina. A seleção deverá ser concluída no prazo máximo de trinta dias, a contar da data de término das inscrições. Os títulos das obras selecionadas e os nomes de seus autores serão divulgados no site da Fundação Catarinense de Cultura (http://www.fcc.sc.gov.br/), onde também está disponibilizado o edital completo.