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domingo, 3 de setembro de 2017

O CHEIRO DA POESIA ou COMO SER BOCÓ



    Por Luiz Carlos Amorim – Escritor, editor e revisor – Fundador e presidente do Grupo Literário A ILHA, que completa 37 anos de literatura neste ano de 2017. Cadeira 19 da Academia Sulbrasileira de Letras. http://www.prosapoesiaecia.xpg.uol.com.brhttp://luizcarlosamorim.blogspot.com.br

A minha amiga poeta  - poetisa, eu sei – Rita Marilia, recentemente me fez redescobrir o nosso grande, incomensurável poeta Manoel de Barros. Fazia um tempo que eu não lia o poeta e ela me trouxe de novo todo o encamentamento que é mergulhar na poesia lúdica e ao mesmo tempo tão densa e profunda, tão verdadeira e original, tão lírica e tão sensível desse poeta tão poeta. Ela me ensinou a recriar a poesia do poeta com coração e alma de criança e eu então, descobri toda a plenitude, toda a completude da poesia de Barros. E eu agradeço muito, muito, por isso.
E Rita Marília, que de tanto amar a poesia e o poeta, acabou estabelecendo uma ligação extradimensional com ele, e eis que nos encanta com um texto que parece quase brotar dos dedos e da sensibilidade de Manoel de Barros. Essa comunhão, como diria ela mesma, me arrepia.
O poeta diz tudo, diz além de tudo, transcende a palavra e dá-lhe significados novos, inusitados, veste-a de  sentimentos maiores e de emoções mais fortes. Tipo assim: “No descomeço era o verbo. / Só depois é que veio o delírio do verbo. / O delírio do verbo estava no começo, lá / onde a criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos. ” Quem mais escutaria o som da cor dos passarinhos, a não ser o poeta-criança? Quem, quem?
Ou então: “Eu penso / renovar o homem / usando borboletas.”  Quintana, também, poeta. Acho que vocês dois andam fazendo poesia juntos, no céu dos poetas. Dêem um abraço em Júlio de Queiroz por mim.
Ou “Hoje eu desenho o cheiro das árvores.”  E esse desenho não será nada menos que lindo. “Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer nascimentos — O verbo tem que pegar delírio.” Ninguém mais diria isso de forma mais poética. “Poesia é quando a tarde está competente para dálias. / É quando / Ao lado de um pardal o dia dorme antes. / Quando o homem faz sua primeira lagartixa. / É quando um trevo assume a noite / E um sapo engole as auroras.” Ah, poeta, esse é o conceito supremo da poesia.
E mais, e mais, e muito mais eu dividiria, que o poeta é amplo, é interminável. E eu fico aqui, me poesiando com a poesia desse mestre. Em tempo: poesiar quer dizer “ser poesia”. Eu tento. Não sei se vou conseguir, algum dia, pois a poesia já é Manoel de Barros, Pessoa, Quintana, Coralina, Júlio de Queiroz… Então, como me atrevo?
E eis que a poeta Rita Marília vem e se transmuta, sem deixar de ser ela mesma, e se poesia. Seu texto “Ser bocó” começa assim: “Quando me escondo na lua de lata e o vento me empina como pandorga, minha cabeça salta de estrela em estrela para pegar uma e amarrar na cabeleira do cometa.” Preciso dizer alguma coisa? E nessa vibe, como diria Gabriel, vai nos encantando: “Quem é bocó corre atrás dos versos e salta por cima dos números ímpares. Quem não é, sabe contar até dez.” E termina assim: “Minha trisavó é vizinha d’um tal homem de barro chamado Manuel. Ela disse que ele disse que eu sou bocó porque minha alma não expandiu ainda.”
E eu, ah, eu me calo.Só pra sentir a poesia e a alma pulando de estrela em estrela.

5 comentários:

  1. Muito acertado Amorim. Faremos um exército de Bocós e salvaremos o mundo. Obrigada por dividir comigo esta paixão.
    Rita Marília

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  2. Oi boa noite!

    Hoje tirei um tempinho para falar com você. Quanto tempo. Sou a professora Edna Matos de Divinópolis - MG. Lembra de mim? Ultimamente estou trabalhando muito e lecionando em 3 turmas de 7º anos. Eles gostam de ler, principalmente a coleção vagalume. Gostaria que fizesse uma crônica para eles com o título: Leitura hoje e sempre. Muito obrigada. Fique com Deus e tenha uma boa noite.

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  3. Professora Edna, que bom vê-la por aqui mais uma vez. Saudades da senhora. Volta e meia eu a cito em alguma crônica, pois não é qualquer um que faz o trabalho que a senhora faz. Vou escrever, sim. Diga o que tem feito com eles. Um grande abraço para a senhora e para os sétimos anos.

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    1. olá boa noite.

      Então, toda a semana peço para os meus alunos lerem um livro literário. Depois escolho uma das aulas e trabalho atividades diversificadas, verificando se a tarefa foi cumprida. Procuro nas atividades elevar a oralidade, a escrita e a leitura. O trabalho é árduo mais desistir jamais. Estávamos trabalhando um projeto da escola sobre Memórias literárias, no qual cada aluno deveria fazer um texto após ter entrevistado uma professora que deu aulas na escola durante 20 anos e agora já encontra-se aposentada. Fiquei orgulhosa de todos pelo empenho e dedicação e observei que a escrita melhorou muito. Isto não foi mérito meu, mas do livro literário que fomentou toda a inspiração.

      Boa noite com carinho, respeito e dedicação.
      Professora Edna Matos.

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    2. Parabéns, professora. Já escrevi o texto, ele foi publicado em alguns jornais, mas não estou podendo publicar aqui no blog por causa de problemas com meu endereço de email. Se a senhora ler este recado, veja minha página no face. Grande abraço.

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