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terça-feira, 7 de abril de 2020

DIÁRIO DA QUARENTENA DO CORONAVÍRUS




             Por Luiz Carlos Amorim - Escritor, editor e revisor, Fundador e presidente do Grupo Literário A ILHA, com 36 anos de trajetória, cadeira 19 na Academia SulBrasileira de Letras. http://luizcarlosamorim.blogspot.com.brhttp://www.prosapoesiaecia.xpg.uol.com.br


Hoje é dia 7 de abril de 2020. Estamos desde o dia 17 de março recolhidos em casa, em Lisboa, por causa do novo coronavírus, o Covid 19, a pandemia que invadiu o mundo todo. Só se sai para ir ao supermercado, à farmácia, à quitanda, à padaria, ao talho – desculpe, açougue -,ao posto de combustível. É claro que quando se vai a um desses lugares, a gente dá uma sapeada para ver como está a cidade, se tem mais ou menos gente na rua. E dá saudade de entrar na loja de pastéis de bacallhau com queijo amanteigado da Serra da Estrela, nas tasquinhas onde serviam o melhor peixe grelhado do mundo, dá vontade de ir à loja de ovos moles, que fica aqui do outro lado da rua, mas não está abrindo, apesar de vender produtos alimentícios. Além dos ovos moles, eles servem um bolo de laranja em formato de rocambole que é uma coisa de outro mundo. Dá uma vontade de ir passear à beira do Tejo e a gente até foi à Praça do Comércio, outro dia, pra matar a saudade – foi uma turistada. Vontade de passear no Jardim da Estrela, um parque belíssimo, muito arborizado, bem do tipo das praças ou parques espanhóis, vontade de ir à Tapada das Necessidades, o jardim de dez hectares do Palácio das Necessidades, O Parque Eduardo Sétimo, no final da Avenida da Liberdade e tantos outros lugares, como o Oceanário, que fica no Oriente, a parte moderna de Lisboa, o Jardim Zoológico, mas não dá. Precisamos nos isolar para não deixar o vírtus de propagar ainda mais.
Então a gente lê muito, brinca muito com o neto Rio, que faz um ano no dia 10 de abril, escreve muito, também, e brinca com o Rio, vê filmes e brinca com o Rio. Ele é muito divertido e a gente não sente o tempo passar. Aprende as coisas muito depressa. Ultimamente, aprendeu a dar tchau e mandar beijinho.
Mas hoje saí, que era preciso ir na mercearia/quitanda comprar frutas e verduras. As ruas já estiveram bem mais desertas em dias passados, mas ainda tem pouca gente saindo, acho que só para as necessidades mais prementes. É claro que ainda tem um ou outro turista remanescente, mas são muito poucos.
Cheguei à mercearia da dona Ana e tinha fila (ou bicha, como se diz aqui). Havia três pessoas na minha frente e é claro que ficamos a quase dois metros uns dos outros. Demorou bastantinho, pois as pessoas saem só o estritamente necessário, então faz-se uma lista de um monte de coisas que é preciso comprar. Mas chegou a minha vez e eu também tinha lista: comprei morangos – enormes e deliciosos, agrião, couve, mandioca – que é importada do Marrocos, farinha de mandioca, bananas, leite condensado, atum – que é uma beleza, aqui, etc. e esqueci de comprar manga. Eu não gosto de manga, mas a filha e o Rio gostam.
Quando voltava, passei por um senhor negro, já na melhor idade – a Mary adora que digam que a terceira idade é “melhor idade” – que ia na minha frente cantarolando, feliz da vida. Achei fantástico uma pessoa, acho que lá pelos seus setenta, nos dias de hoje, tão bicudos, sair por aí de tão bom humor. Apertei o passo para passar por ele e dizer-lhe “Bom dia!”, só para ouvir ele desejar-me “Bom dia”, também, com toda aquela felicidade. Desejei que com o “bom dia” dele, viesse um pouco daquela alegria espontânea, tão singela e tão verdadeira.
Já em casa, fizemos educação física na sala de casa, que a filha Daniela é educadora física com mestrado em dança, tomei banho, almocei – quase cinco da tarde – e comi os morangos deliciosos e enormes pensando naquele senhor feliz, apesar de qualquer coisa – ele mancava - e não pude deixar de, logo em seguida, deixar tudo de lado e escrever sobre ele, nesta crônica. Uma lufada de ar puro, nesses ares atuais tão contaminados. Obrigado, senhor. Vou dormir mais feliz hoje.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

MEU AVÔ, A PÁSCOA, NOVOS TEMPOS

Por Luiz Carlos Amorim – Escritor, editor e revisor – Cadeira 19 da Academia Sulbrasileira de Letras. Fundador e presidente do Grupo Literário A ILHA, que completa 40 anos em 2020. Http://luizcarlosamorim.blogspot.com.brhttp://www.prosapoesiaecia.xpg.com.br
 

A Páscoa está chegando e chega bem a propósito, pois o mundo esta precisando de renovação, de renascimento, de libertação, tudo o que ela significa. O mundo está por demais conturbado, está doente, está em quarentena. O mundo parou. Chance para nós, seres humanos, nos revisitarmos e nos reconstruirmos.
O ser humano está perdendo a sua essência, o seu rumo, a sua humanidade, e a violência e o ódio estão tentando calar a voz da paz, da harmonia, da tolerância. Então precisamos, todos, refletir sobre o sentido da Páscoa e procurar o caminho do renascimento deste nosso mundo, o caminho da união e do perdão, da capacidade que ainda temos de sermos generosos, da conscientização de que precisamos mudar. Precisamos mudar, porque até na desgraça maior, uma pandemia que assola os quatro cantos do mundo, as pessoas estão brigando por diferenças políticas.

Apesar de tudo isso,  Páscoa me traz a lembrança boa, mais uma vez do meu avô Lúcio.
Digo que a Páscoa faz com que ele se faça mais presente na lembrança, porque ele morava em Corupá, quando eu era criança, mas quando eu tinha uns 6 ou 7 anos ele mudou-se para Joinville. Ele era ferroviário, assim como quase todos na família, e a imagem dele chegando a nossa casa com uma cesta de vime pendurada no braço direito não me sai da memoria. Nossa casa ficava distante da estação ferroviária, em Corupá, mais ou menos uns dois quilômetros. Mas lá vinha ele, a pé, com a cesta cheia de guloseimas para nós, os netos. Ele trazia aquelas balas grandes e coloridas, do tamanho de um ovo de galinha, que hoje já não existem mais, trazia babaçu maduro, um coco amarelo do tamanho de um ovo de galinha, também, com uma ou duas amêndoas dentro, do tamanho de uma castanha do Pará, talvez, coisa que já não vejo há décadas por aqui, infelizmente. Trazia tucum maduro – uma fruta parecida com butiá, mas preta - a gente come a casca e o coquinho que tem dentro. Trazia goiabas, trazia maria-mole, trazia aquelas balas coloridas que eram cortadas em fatias grossas, que tinham um desenho no interior, nem sei se elas ainda existem.
Era uma festa a chegada do meu avô a nossa casa em Corupá. Acho que ele ficava colecionando todas essas frutas e doces para encher a cesta e, num seu dia de folga, tocar para Corupá para entregar tudo aquilo pra gente. Coisas simples, mas que eram oferecidas com carinho e tinham um valor incomensurável. Tinham um gosto de Páscoa, pois ele provava e renovava o seu carinho pelos netos.
Hoje os avôs não dão, absolutamente, esse tipo de presente. Hoje os avôs dão brinquedos eletrônicos, como jogos, smartfones, tablets, consoles, etc. Mas aqueles tempos do meu avô eram felizes e dá uma saudade muito grande.
Não lembro mais do rosto do meu avô, só lembro que ele era careca, tinha apenas uma coroa ao redor da cabeça. Acho que lembro disso porque também estou ficando careca e talvez fique igual a ele. E, engraçado, apesar de não lembrar do rosto dele, eu ainda o vejo chegando com a cesta no braço, cheia de oferendas. Como se fosse a Páscoa chegando. Saudade.

domingo, 29 de março de 2020

SOLIDARIEDADE EM TEMPOS TERRÍVEIS



Por Luiz Carlos Amorim – Escritor, editor e revisor – Cadeira 19 da Academia Sulbrasileira de Letras. Fundador e presidente do Grupo Literário A ILHA, que completa 40 anos em 2020. Http://lcamorim.blogspot.com.brhttp://www.prosapoesiaecia.xpg.com.br
 
O novo coronavírus que veio da China está parando o mundo e, infelizmente, há que parar, para que mais pessoas não fiquem doentes. Temos que ficar em casa, todos nós, para que não contraiamos a doença e para que não a passemos, se estivermos infeccionados. Temos que seguir o protocolo de higiene, largamente e repetidamente divulgado e sair de casa só o estritamente necessário: para ir ao supermecado, à farmácia, ao trabalho, se não houver maneira de levar o trabalho para casa, se bem que muitos locais de trabalho estão fechando, para que não haja pessoas muito perto umas das outras.
E ficando em casa, temos que nos ocupar, temos que encontrar atividades para ocupar o tempo, pois chega uma hora em que tudo o que podia ser feito em casa já foi feito. Então temos que ter livros para ler, bons programas e filmes para ver, música para ouvir, jogos para nos entretermos, brincadeiras e um menino Rio, esse ser iluminado, para curtir e alegrar tudo, se for possível.
É tempo de solidariedades e há muitas delas. Queria falar de algumas, dessas que em tempos de ficarmos em casa, nos encantam e nos fazem abençoar o tempo disponível. Falo de iniciativas como a do espetáculo Rua das Pretas, que era apresentado todos os sábados num palacete do bairro Príncipe Real, aqui em Lisboa, pelo cantor e compositor Pierre Aderne. Ele cantava e trazia cantores brasileiros, portugueses – o fado não pode faltar, é claro -, americanos, caboverdianos e por aí afora, numa tertúlia intimista deliciosa, como se fosse na sala da gente, regada a ótimos vinhos.
Não podendo mais abrir o palácio do Príncipe Real, Pierre faz o espetáculo on line, virtual, e a gente pode ter o Rua das Pretas no aconchego do nosso lar. Pierre fica no palco costumeiro do espetáculo e cada cantor, de sua casa mesmo, seja no Brasil, em Portugal ou outro lugar, é colocado na tela do Instagram junto ao apresentdor e canta, para deleite da gente, dentro de nossas casas. E assim, nos dão de presente o seu melhor produto, o que sabem fazer melhor: a sua música. Para nos embalar a alma, para apaziguar o coração e nos lembrar que, apesar de tudo, não estamos sós.
Essa solidariedade me emociona. Como a da professora de dança Renata, em Florianópolis, que também lança mão da tecnologia e dá aulas de alongamento via instragram. Ela pensou em nós, no fato de ficarmos em casa parados e nos possibilita alongar-nos, com a sua ajuda. Isso não é fantástico?
Como a minha filhota Fernanda que, a partir de sua casa em Nice, na França, nos dá aulas de pilates, para a gente manter uma boa atividade física, para nos mantermos ativos, saudáveis. Isso não é fenomenal? São humanidades, diria eu!
Como a nossa filhota Daniela, que pode nos dar aulas de educação física, no nosso apartamento na Luzboa, o que também nos ajuda a manter-nos em forma, em tempos tão singulares. E o Rio ainda ajuda a mãe dele nesse trabalho solidário e tão importante para todos nós, com sua alegria de viver contagiante.
Isso é tudo! Essas, dentre tantas outras solidariedades, são algumas das solidariedades que podem mudar nossas vidas. A generosidade de alguns seres humanos privilegiados que podem salvar a vida de outros seres humanos.

PÁSCOA, RENASCIMENTO E LIBERTAÇÃO



         Por Luiz Carlos Amorim – Escritor, editor e revisor – Cadeira 19 da Academia Sulbrasileira de Letras. Fundador e presidente do Grupo Literário A ILHA, que completa 40 anos em 2020. Http://luizcarlosamorim.blogspot.com.brhttp://www.prosapoesiaecia.xpg.com.br

A quaresmeira, tipo de jacatirão que tem esse nome porque floresce na quaresma, está em plena florescência, uma temporada especialmente colorida, talvez para compensar os tempos cinzentos que vivemos. Como será a Páscoa, com tantas pessoas doentes e outras morrendo? Haverão quaresmeiras suficientes para colorir tempos tão escuros?
Mas elas, as flores da Páscoa estão aí para nos lembrarmos que a vida continua, para nos lembrarmos de um Menino que nasceu para nos trazer esperança e fé e que essa esperança e essa fé é que podem nos dar alento para enfrentar o que nos fere.
Em Rancho Queimado, na grande Florianópolis, há um trecho da 282 que está uma beleza, tingido de vermelho e vinho dos dois lados da estrada. Na serra gaúcha também há muitos deles, principalmente nos jardins, e a quantidade de flores é um espetáculo à parte.
Este tipo de jacatirão, a quaresmeira, tem as flores menores do que o jacatirão nativo, que floresce na primavera/verão, mas é mais colorido, tem cores mais vivas, mais vibrantes. Então não dá pra não notar uma quaresmeira fechada de flores. O manacá-da-serra, outro tipo de jacatirão que floresce no inverno, é mais parecido com o nativo.
Fico encantado com as manchas vermelhas que as quaresmeiras deixam na mata, nos jardins, nas beiras das estradas. Mas não é um encantamento comum, simples, é um encantamento mágico, pois meus olhos são atraídos pelas cores das pétalas vermelhas e lilazes, no meio do verde, e meu olhar flutua em direção a elas, como se minha alma seguisse com ele em direção às cores. E então meus olhos brilham, como faróis, e o raio de luz é o canal de ligação com meu coração.
É assim que me sinto encantado com a generosidade das flores do jacatirão, encantamento que envolve meu olhar, minha alma, meu coração. Assustado com este tempo de pandemia que vivemos, nutro-me do encantamento das cores do jacatirão de Páscoa.
E parte deste encantamento, ainda, é o porquê de eu chamar o jacatirão de “flor da Páscoa”. Acho que ele é a flor de Cristo, também, porque o jacatirão nativo está florescido em dezembro, quando nasce o Menino Jesus para todos nós. E uma variedade desse mesmo jacatirão, a quaresmeira, está florescida na Páscoa, quando aquele Menino, feito homem, é cruscificado e sobe aos céus. O jacatirão está presente tanto na chegada quanto na partida do Menino, filho do Pai. Não é uma flor divina?
Pois a Páscoa não é simplesmente ovos e coelhos de chocolate. A palavra Páscoa vem do hebraico e significa "passagem". Os judeus comemoravam esse dia antes mesmo do nascimento de Cristo, desde há muito tempo, então com outro sentido: o de liberdade, ou seja, a libertação de anos de escravidão no Egito. Para os cristãos, a Páscoa passou a celebrar o renascimento de Cristo, a passagem dEle deste mundo para o Pai.                                               
Páscoa, então, é renascimento, renovação, a festa da libertação. Época de repensar a vida e renová-la, de refletir sobre o Menino que se tornou homem, morreu e ressuscitou, elevando-se ao céu, provando aos homens que há uma força divina, maior, regendo nossos destinos.
De maneira que Páscoa é fé em uma força maior que rege nossos destinos e é  também jacatirão, a flor que anuncia o Natal e enfeita a Páscoa, que anuncia a chegada e a elevação do Menino filho de Deus. Então vivamos a Páscoa, pois estamos vivendo um renascimento, que pode ser a libertação daquilo que nos abate.

domingo, 8 de março de 2020

RUMO AOS QUARENTA ANOS DE LITERATURA



 a edição 152 do SUPLMENTO LITERÁRIO A ILHA, a revista do Grupo Literário A ILHA, que completa 40(quarenta) anos de circulação em junho próximo, com a edição 153. Para comemorar este importante aniversário, um grande marco para a literatura produzida em Santa Catarina e no Brasil, a revista mais perene do gênero, as Edições A ILHA e o Grupo Literário A ILHA estarão publicando mais uma antologia, talvez a mais importante de todas que já publicamos. Porquê? Por que a nova antologia comemora 40 anos de literatura do Grupo Literário A ILHA e da sua revista, marco inédito para um grupo literário e sua publicação. Por que será um grande livro, mostrando mais da produção dos integrantes do grupo. Essa nova antologia será um painel que dará uma mostra da lavra dos nossos escritores, pois não publicaremos apenas um trabalho de cada um. Vamos comemorar nossos quarenta anos de literatura?
   Comemoraremos, também, participando da Feira do Livro de Lisboa, com o lançamento da edição de aniversário, em junho, desta revista, da antologia POETAS DA ILHA e do livro PORTUGAL, MINHA SAUDADE, deste que vos escreve.
   Nesta mais recente edição do SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA publicamos algumas matérias mais importantes publicadas em números anteriores da revista, para relembrarmos alguns acontecimentos marcantes da nossa literatura.
Muita prosa, muita poesia e muita informação literária e cultural em sessenta e oito páginas de muita literatura. Leia também na página do Grupo Literário A ILHA no facebook, comente, dê sugestões, critique e participe. Nosso e-mail para contato é lcaescritor@gmail.com.