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quarta-feira, 17 de agosto de 2016

A VOZ DA POESIA



    Por Luiz Carlos Amorim – Escritor, editor e revisor – Fundador e presidente do Grupo Literário A ILHA, que completou 36 anos em 2016. Cadeira 19 da Academia Sulbrasileira de Letras. Http://luizcarlosamorim.blogspot.com.brhttp://www.prosapoesiaecia.xpg.uol.com.br


Já falei, aqui no blog, da poesia de Júlio de Queiroz, que eu reputo o mais importante escritor contemporâneo de Santa Catarina e, quiçá, do Brasil. Exagero? É só ler a obra que ele deixou, para entender. Quando ouvi um CD com o qual ele me presenteou, há uns dois anos, com declamações dos seus poemas por ele mesmo, fiquei impressionado. A poesia dele, tão densa, tão bela, tão cheia de conteúdo, já havia me encantado, mas não sabia que ela ficaria ainda mais bonita, mais forte, mais lírica, declamada pelo próprio poeta. Foi um presente ímpar, espetacular. Gosto de todos os poemas, mas Minha Cidade, Paisagem com aceno, Um amor tão de leve merecem destaque. São belíssimos, são obras primas.

Então enviei, na época, mensagem a ele dizendo isso, e ele respondeu: “Meus Deus, amigo, não faça isso comigo.” Ora, meu grande amigo poeta, eu tinha que fazer, porque é a mais pura verdade. Como disse na resposta ao Júlio, a gente lê poesia boa, excelente, mas também se lê muita coisa fraquinha, hoje em dia, quando prolifera muita coisa que nem poesia é. De maneira que, quando descobrimos alguém que faz poesia de verdade, plena de essência, há que se dizer a todos que temos um poeta com P maiúsculo.

O CD é muito bom, o poeta está de parabéns por dar ainda mais vida aos seus já perfeitos poemas. Talento de poeta é isso. Talento inteiro, completo, verdadeiro. Esse CD é um bônus que Júlio de Queiroz nos deixa, além de toda a sua obra em gêneros como conto, poesia, ensaios, nos quais ele é mestre. Faz parte do grande legado que ele nos deixa, pois ele levou todo o seu talento, intelectualidade, sabedoria e carisma para o andar de cima, para tristeza de nós, seus amigos e seus leitores e para alegria da plêiade de poetas que já está por lá, como Drummond, Coralina, Quintana, Pessoa e tantos outros.
Que bom poder ter a voz do poeta na sua poesia viva, poder continuar a ouví-lo para tê-lo ainda mais perto de nós, agora que ela foi fazer poesia na eternidade, imortal que é e continuará sendo em nossos corações.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

SER PAI



    Por Luiz Carlos Amorim – Escritor, editor e revisor – Fundador e presidente do Grupo Literário A ILHA, que completou 36 anos em 2016. Cadeira 19 da Academia Sulbrasileira de Letras. Http://luizcarlosamorim.blogspot.com.brhttp://www.prosapoesiaecia.xpg.uol.com.br

Dia dos Pais se aproximando e deixa mais vivo na memória que minha filharada está tão longe, que a casa está vazia e isso dá uma saudade danada. Fernanda mora em Nice, na França – embora more quase perto do local do atentando, ela não tinha ido ao desfile, ufa!  -, mas embarca pelo mundo e não tem ficado muito lá. Daniela está em Lisboa e ela e Pierre Aderne também viajam bastante, mas não têm vindo ao Brasil.
Estivemos em Lisboa em junho, eu e Stela, para matar um pouco da saudade de Daniela e Pierre e Fernanda esteve aqui nos primeiros meses de 2016, para ajudar na convalescenca da mãe, que fez um cirurgia delicada no final de 2015. Mas ah, que falta que elas fazem!
E o Dia dos Pais não só aumenta a saudade, mas me faz pensar no privilégio de ser pai. É interessante que até algum atrás, quando era um pouco mais jovem, eu achava que era um ótimo pai. Mas o tempo foi passando, a gente começa a ver tudo com mais clareza e comecei a tomar consciência de que não fui aquilo tudo como pai das minhas filhotas.
Queria ter ficado mais tempo com elas, queria ter vivido mais a infância delas, queria ter aprendido mais com Fernanda e com Daniela, queria ter trabalhado menos e vivido mais a adolescência delas. Queria ter aprendido com elas a dar mais carinho, a expressar melhor os sentimentos, queria ter sido mais pai. Queria não ter ficado longe delas por dois anos, por causa do trabalho, vendo a família só no fim de semana. Isso faz falta.
Sei que fizemos alguma coisa certa, eu e Stela, pois nossas meninas são pessoas educadas, inteligentes e capazes, assim como solidárias e carismáticas. Mas sei também que eu poderia ter sido um pai melhor.
Então, o grande presente que tenho, sempre, em qualquer dia, até no Dia dos Pais, é ter sido pai de pessoas de almas e corações tão grandes e abençoados. O tempo de vê-las crescer foi o tempo mais feliz da minha vida.
PS.: Já passou tanto tempo, mais de trinta anos, mas ainda não consigo escrever sobre a perda de nossa pequena Vanessa, que se foi muito rápido, no dia seguinte ao de sua chegada. Ainda dói muito.

sábado, 30 de julho de 2016

SAUDADES TANTAS


      Por Luiz Carlos Amorim - Escritor, editor e revisor, Fundador e presidente do Grupo Literário A ILHA, com 35 anos de trajetória, cadeira 19 na Academia SulBrasileira de Letras. http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br

O título desta crônica deveria ser “Todas as Saudades”. Mas meu livro mais recente, “Portugal, Minha Saudade”, que reúne crônicas que falam de várias saudades diferentes, também merece este nome. Então, começo mudando o título da crônica e, quem sabe, na segunda edição do meu livro, mudo também o título dele? Ou, pelo menos, adiciono um subtítulo.
Então vamos falar de saudades. Quanta saudade cabe em um dia? Ouvi isso, outro dia, em um comercial e fiquei pensando a respeito. Lembrei da nossa pinscher Xuxu, que quando a gente saía, ficava o dia inteiro no portão, sentada perto da grade da garagem, esperando a gente. Podia estar frio, ela podia estar com fome ou com sede, mas não arredava pé. Minha mãe ficava admirada com isso, quando ficava em casa para cuidar dela. Quando a gente chegava, era uma festa só, com latidos, correrias, lambidas, etc.
Dá pra medir a quantidade da saudade que se sente? Tenho saudades de lugares, de coisas que vivi, mas tenho mais saudades de pessoas. E também pergunto: quanta saudade cabe em um dia, em uma semana, em um mês, em um ano, em uma vida?
Tenho saudades da minha filharada, que cresceu e foi embora e deixou uma casa enorme para trás, que insiste em me lembrar que minhas meninas não são mais crianças, que agora têm as próprias casas, tão longe da nossa.
Tenho saudades da nossa primeira filha, Vanessa, que chegou, há muitas primaveras, e logo se foi, tão rápido. Mas dói como se tivesse sido ontem, embora a saudade se acumule há muitos, muitos anos.
Tenho saudades dos meus irmãos, mais dos que já se foram, tenho saudades da minhas avós, dos meus avôs, de amigos queridos que foram conhecer o outro lado da vida ou estão muito longe para que possamos vê-los e abraçá-los.
Tenho saudades de mim, da criança que fui, em tempos idos. Tenho saudades de meus outros eus. Preferia, às vezes, não ter saudades, mas a saudade é a prova maior de que vivemos bons momentos, de que fomos felizes. De maneira que quanto mais saudades temos, tanto mais felizes temos sido ou estamos sendo.
Então que venha a saudade, que sempre cabe mais uma pequena felicidade nas nossas vidas, até uma felicidade bem grande, muito grande, que vai acabar se transformando em uma enorme saudade.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

HOJE É O NOSSO DIA!

Por Luiz Carlos Amorim – Escritor, editor e revisor – Fundador e presidente do Grupo Literário A ILHA, que completou 36 anos em 2016. Cadeira 19 da Academia Sulbrasileira de Letras. Http://luizcarlosamorim.blogspot.com.brhttp://www.prosapoesiaecia.xpg.uol.com.br

25 de julho um dia para homenagear nossos escritores, da palavra, como Júlio de Queiroz, talvez o maior escritor de Santa Catarina, um dos grandes escritores brasileiros, que nos deixou recentemente. Escritor, esse artista solitário, cujo trabalho é registrar a trajetória do ser humano no nosso planeta, seja na ficção ou na não ficção. O escritor é aquele que, em verso ou prosa, localiza o homem no espaço e no tempo, com seus costumes, sua cosmovisão, seu habitat, seus sentimentos e emoções, suas vitórias e derrotas, seu caminho pela vida.
Minha homenagem a todos os escritores, sejam famosos ou não, tenham publicado livros ou não, livros tradicionais, de papel, ou eletrônicos. Sabemos que, mais do que nunca, surgem escritores novos, mas o mercado editorial absorve muito poucos deles, pois livro é um produto para as editoras e um produto tem que vender. Elas arriscam pouco nos novos.
A internet veio para se transformar no veículo mais democrático que pode existir, para os novos autores, pois todos podem usá-la como vitrine, colocando lá a sua obra. É claro que só os que tiverem algum talento ficarão visíveis, mas a verdade é que o espaço está lá e é de todos.
A concorrência é grande, o número de escritores é cada vez maior, mas o número de leitores ainda não é o que seria desejável. O Brasil ainda é um país que lê pouco. Temos poucas livrarias, o preço do livro ainda é muito alto e a escola não tem, no seu conteúdo programático, espaço delimitado ou suficiente para incentivar o hábito da leitura nos nossos leitores em formação.
Neste dia do escritor, conclamo todos eles para que nos unamos, e nós todos, cada um, procuremos ir a uma ou mais escolas, aquela perto de casa, por exemplo, para procurar mostrar lá a nossa obra, divulgando a literatura como um todo e incentivando a leitura.
E há que exijamos, também, a melhoria da educação em nosso país, pois o fato de termos uma sistemática de ensino de melhor qualidade implicará em estudantes mais propensos a gostarem de ler.


quarta-feira, 20 de julho de 2016

RECONHECIMENTO A NOSSA LITERATURA



             Por Luiz Carlos Amorim – Escritor, editor e revisor – Fundador e presidente do Grupo Literário A ILHA, que completou 36 anos em 2016. Cadeira 19 da Academia Sulbrasileira de Letras. Http://luizcarlosamorim.blogspot.com.brhttp://www.prosapoesiaecia.xpg.uol.com.br

Li de novo o artigo “A literatura em Santa Catarina”, publicado há algum tempo. Gosto  do texto, lúcido e coerente, mas me detenho no fecho do mesmo: “A literatura de Santa Catarina só será reconhecida e admirada nacionalmente, quando encontrar seu espaço dentro de seu próprio território e entre a sua própria gente. Precisamos conhecer para reconhecer.”

É a mais pura verdade. Não que não tenhamos grandes escritores catarinenses, reconhecidos nacionalmente, como Salim, que nos deixou recentemente, Urda, Tezza, Flávio Cardoso, Sérgio da Costa Ramos, Júlio de Queiroz, que também foi fazer companhia a Salim Miguel, infelizmente, e outros, mas a verdade é que o leitor catarinense não procura conhecer a obra de autores da terra. E isso não se refere apenas ao leitor comum, ao público em geral, que prefere comprar os Best-sellers a ler um livro de autor daqui. Os próprios escritores catarinenses não prestigiam o colega que publica sua obra.

Tenho visto lançamentos de escritores de literatura produzida aqui no Estado, nas feiras do livro aqui de Florianópolis, nos quais pouquíssimos escritores comparecem. Dá pra contar no dedo quem aceita o convite e vem comprar o livro de autor catarinense. Um que não falha é Celestino Sachet, grande escritor catarinense que conhece a literatura daqui porque a lê. Os escritores, no geral, parecem não prestigiar muito os seus pares.

Em Joinville, onde existe a Confraria do Escritor, reunindo todos os escritores da cidade e região, três deles fizeram, há algum tempo, um lançamento de seus livros na cidade, mas das dezenas de escritores que fazem parte da nova agremiação, apenas alguns poucos deles, os que sempre estão presentes a eventos literários, prestigiando os colegas, é que compareceram, como Else Sant´Ana Brum, Wilson Gelbcke, Donald Malchinsky. Os outros que estavam presentes eram os autores do livros lançados: Célia Biscaia Veiga, eu e Mary Bastian.

Então o trabalho feito por algumas boas escolas, no que diz respeito a trabalhar escritores locais em sala de aula, lendo sua obra, fazendo trabalhos sobre ela, convidando os focalizados para interagir com os alunos, é de vital importância para que leitores em formação conheçam autores que às vezes moram ao lado, mas de quem nunca leram uma linha.

É esse trabalho de base, essa aproximação autor/leitor, que precisa ser feito pela escola, que vai fazer com que o leitor catarinense conheça e reconheça a literatura produzida aqui.

Já perguntei, em palestras para primeiro e segundo graus, quais os escritores da cidade onde estávamos, como Jaraguá, por exemplo, os estudantes conheciam. E ninguém levantou a mão para responder. Eu insisti que havia vários escritores da cidade escrevendo crônicas nos jornais locais, mas mesmo assim não eram conhecidos pelos estudantes.

Em Joinville a pergunta encontrou algum eco, um ou outro autor joinvillense foi citado, pois a escola já os tinha trazido para conversar com os alunos, como estava fazendo comigo, então alguns responderam, mas muitos outros escritores, alguns com romances publicados em nível nacional, não foram citados.

De maneira que a escola tem um papel fundamental nessa aproximação autor/leitor, nessa possibilidade de levar a obra do autor que reside na mesma cidade do aluno até ele. Não estou dizendo que é fácil, porque sei que há muitas dificuldades enfrentadas pelos professores, até o próprio conteúdo programático, que não raro, deixa de facilitar essa tentativa de popularizar a nossa literatura. Ainda bem que ainda existem excelentes professores que encontram brechas no conteúdo programático para estudar literatura.

Mas é preciso começar em casa. Casa que não tem livros é casa que tem criança com menos possibilidade de vir a gostar de ler. Ter livros diante dos olhos, ter livros nas mãos, mesmo antes de aprender a ler é condição sine qua non para que nossas crianças venham a gostar de ler. Eu já comprovei isso mais de uma vez.

domingo, 10 de julho de 2016

MEU DOURO



Por Luiz Carlos Amorim – Escritor, editor e revisor – Fundador e presidente do Grupo Literário A ILHA, que completou 36 anos em 2016. Cadeira 19 da Academia Sulbrasileira de Letras. Http://luizcarlosamorim.blogspot.com.brhttp://www.prosapoesiaecia.xpg.uol.com.br

Já estive no Douro, há alguns anos, levado por Pierre Aderne e Daniela, e agradeço a eles por me ter dado a oportunidade de conhecer um dos lugares mais lindos de Portugal e do mundo. Fiquei hospedado em uma quinta produtora de vinhos em Peso da Régua e Dani e Pierre nos levaram, a mim e a Stela, ao Crasto, também, para um jantar na quinta do mesmo nome.
Douro e Trás-os-Montes me cativaram. E voltei, nesse junho de 2016, para andar no meio do Rio Douro, através do Rio Douro, pois até então eu havia estado em suas margens, admirando a sua beleza. Peguei uma barca para um cruzeiro até Pinhão, passando pela Régua e pude admirar com mais vagar o grande rio do norte de Portugal e suas margens, pejadas de vinhedos, de um outro ângulo: pude experimentar o olhar do próprio rio. Os famosos socalcos – plataformas cortadas nos morros para que formem degraus -, os terraços ou escadas onde são plantadas vinhas por todos os montes que formam a região do Douro, estavam verdinhos, verdinhos, com os pés de uvas começando a carregar de cachos de uvas.
E ver as margens do Rio Douro muito verdes, intensamente verdes, com suas vinhas carregando de cachos de uvas da melhor qualidade, uvas que vão se transformar nos melhores vinhos, é uma sensação inigualável. Meus olhos míopes se enchem com essa beleza ímpar. É tanta uva, tanto verde, tanto encantamento… E ainda tem as oliveiras, também, por todo lado.
O Douro, região do norte de Portugal que tem esse nome justamente por causa do grande e belo rio que domina o vale, é verdadeiramente um dos lugares mais lindos do mundo. Além da beleza da cultura das uvas – nesta época, início do inverno na Europa, está começando a produzir, lá por outubro é feita a vindima, pois os frutos estarão maduros, prontos para serem colhidos e em seguida as folhas das uvas transformam-se num degradé belíssimo, assumindo quase todas as cores que existem – o Rio Douro é navegável e podemos deslizar através do seu leito para admirar toda essa natureza de beleza incomensurável.