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quarta-feira, 11 de novembro de 2015

LITERATURA TEM IDADE?



      Por Luiz Carlos Amorim - Escritor, editor e revisor, Fundador e presidente do Grupo Literário A ILHA, com 35 anos de trajetória, cadeira 19 na Academia SulBrasileira de Letras. http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br

Florianópolis tem o Projeto Floripa Letrada, que consiste em estantes nos terminais de ônibus, onde são disponibilizados livros, revistas e apostilas. A proposta é que os usuários dos ônibus urbanos levem os livros para ler e depois devolvam, para que outras pessoas possam fazer o mesmo, mas aqueles que devolvem são muito, muito poucos.
O projeto existe e persiste graças a doações de empresas e pessoas físicas e, como disse acima, nos últimos anos o forte do que era oferecido nas estantes eram as apostilas didáticas ou técnicas, novas ou usadas. Algumas defasadas, mas outras em perfeito estado para serem usadas. Eu até peguei uma apostila de inglês e outras de matemática e as usei.
Mas há algumas semanas, a gente tem encontrado livros literários mais frequentemente e em maior quantidade nas estantes do Floripa Letrada. Livros antigos, mas obras importantes de autores consagrados, como Mário de Andrade, Monteiro Lobato, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Vinícius de Moraes, Pedro Bandeira, Salim Miguel, Sérgio da Costa Ramos, Pedro Block, Dostoievski e tantos outros.
Pelo carimbo que tem em todos os livros, fica-se sabendo que os livros eram da biblioteca de um grande colégio da capital, tradicional e ainda elitista. É interessante que no tal carimbo consta o nome do colégio e a esclarecedora observação: “Baixa de acervo”.
Acho ótimo que disponibilizem obras de qualidade para a leitura dos usuários do transporte público, pois temos a oportunidade de ler bons livros sem ter que pagar nada, mas fico pensando aqui com meus botões: a boa literatura fica velha?  Nunca vi uma escola se desfazer do acervo de sua biblioteca assim, descartando todos os livros publicados há mais de uma década, como se não servissem mais para os seus alunos, como se estivessem completamente defasados para aquela escola.
Já vi, infelizmente, uma escola de uma cidade vizinha jogar fora – jogar no lixo, mesmo -, livros didáticos novos. O diretor foi despedido. Mas descartar livros de uma biblioteca por serem velhos, é novidade. O livro pode até ficar velho, mas a obra, não. Será que a escola só queria abrir espaço, nas suas dependências, para outra atividade? Eu poderia dizer que fizeram bem porque os livros seriam lidos novamente por vários leitores, cada um daqueles volumes descartados, mas como mencionei acima, o propósito de ler e devolver ao projeto Floripa Letrada não é cumprido. Então os estudantes que se renovam a cada ano, na escola que cedeu os livros, poderiam ler e recriar a escritura de tantos autores muito mais vezes. De qualquer maneira, eles terão, espero, livros mais contemporâneos para ler. E nós, cá de fora, teremos as obras que foram publicadas há mais tempo, graciosamente. Menos mau.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

SABORES DA MINHA TERRA



Por Luiz Carlos Amorim – Escritor, editor e revisor, Fundador e presidente do Grupo Literário A ILHA, com 35 anos de trajetória, cadeira 19 na Academia SulBrasileira de Letras. http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br


Minha terra, Corupá, a Cidade das Cachoeiras, o Vale das Águas encravado ao pé da Serra do mar, no norte de Santa Catarina, não é privilegiado apenas por suas belezas naturais. A pequena cidade, ainda um paraíso para se viver, não tem só as suas dezenas de quedas d´água, seus rios e montanhas, uma geografia das mais belas. Corupá tem sabores que só encontramos lá, naquela terra abençoada.

Não sei nem por onde começar. Acho que as passas de bananas, a popular banana seca, representa bem o que quero dizer, pois Corupá é a capital catarinense da banana. As passas de bananas produzidas lá são as melhores que conheço. E olhe que já experimentei muitas.

O Vale das Águas, apesar da grande vocação turística, é uma cidade primordialmente agrícola. Lá ainda se pode colher muita laranja, muita tangerina, além de xinxins, ponkans e limões. E a tangerina e a laranja, no seu tempo de maturação, são deliciosas e emprestam um matiz dourado aos morros do interior, evidenciando o quanto é rica aquela terra.

Ainda encontramos, em docerias da cidade, tortas de ricota da melhor qualidade. Mas não dá pra esquecer a torta de ricota (quando eu era menino, dizia-se torta de queijo branco ou requeijão) da saudosa dona Helena Thieme. Era uma delícia, era tradicional, era feita sempre da mesma maneira e tinha sempre o mesmo sabor. Acho que a receita se perdeu. Ou foi a mão de quem fazia?

Em Corupá também se faz um queijo de porco que não tem igual em nenhum outro lugar. O que é queijo de porco? Vou tentar explicar: todos os miúdos do porco – fígado, coração, rim, etc., mais pedaços de carne, são temperados e cozidos. Depois coloca-se em formas, conforme o formato que se queira, redondo, quadrado – e deixa-se esfriar. A parte líquida do cozido fica firme como um gelatina e dá pra cortar o “queijo” em pedaços. É muito bom. É calórico, como tudo que é bom, mas vale a pena. O pão de milho que se faz na zona rural de Corupá também é inigualável. E as carás, os lambaris e cascudos que a gente pescava na Cidade das Cachoeiras também eram fantásticos. Será que ainda os há?

Os biscoitos de melado (de Natal) que são feitos em Corupá são os melhores de que tenho notícia. Eles são escurinhos, crocantes e coloridos. E são de melado mesmo.

Aipim com bacon também é uma coisa das mais saborosas que a gente pode comer em qualquer restaurante da cidade. E há muito mais. Mas voltar a Corupá é o mais gostoso, tem gosto de infância.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

DIA DA SAUDADE

                      Por Luiz Carlos Amorim - Escritor – Http://www.prosapoesiaecia.xpg.com.br

Hoje minha crônica não vai ser literária, nem romântica, nem poética. Vai ser apenas triste. Porque é dia 2 de novembro, dia daquela saudade de nossos queridos que se foram doer um pouquinho mais. E a primavera me traz flores e vida, esperança e desejo de renovação, mas também me traz uma enorme sensação de perda.
O início de novembro tem Finados e o final de um outubro antigo levou um pedaço de mim, há muitas primaveras. Trinta e três primaveras, para ser exato. Então, esse dia de saudade, para mim, é um dia no qual aquela dorzinha escondida, que fincou raízes lá no fundo do peito, doendo um pouquinho sempre, agora dói um tanto mais.
Saudades, saudades infinitas de uma convivência que poderia ter existido, mas não aconteceu. E ter saudades de alguém que chega e já se vai, sem deixar nada para ser lembrado, é ainda mais doído. Até me disseram, quando Vanessa se foi, no dia seguinte ao do seu nascimento, que era melhor assim, era melhor do que se ela tivesse ficado algum tempo e depois tivesse ido, doeria menos. Eu não concordo.
Ficou um vazio enorme, uma saudade de ter do que ter saudades, aquela imagem nítida da luta pela vida, ferrenha, mas perdida.
E uma imagem quase romântica, no meio de tanta aridez: no dia em que Vanessa se foi, as primeiras flores dos primeiros jacatirões nativos se abriram. Fiz até um poema, que depois virou lápide: “A primeira flor / de jacatirão / da primavera, / em outubro, / tem um nome: / saudade...”
Mas os jacatirões estão florescendo novamente, este ano, o manacá-da-serra, jacatirão de inverno, ainda está cheio de flores no meu jardim, e amanhã eu vou estar melhor, prometo. E volto a falar de poesia e de livros, de artes e cotidiano. Porque a vida é assim. Saudade é dever de casa, patrimônio nosso de cada dia, herança intransferível e razão sine qua non para mantermos vivas as nossas gentes queridas em nossos corações, para mantermos perto outras tantas gentes queridas que estão longe.

sábado, 31 de outubro de 2015

LEITURA PELO MUNDO



Por Luiz Carlos Amorim - Escritor, editor e revisor, Fundador e presidente do Grupo Literário A ILHA, com 35 anos de trajetória, cadeira 19 na Academia SulBrasileira de Letras. http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br


Muitas coisas têm me encantado nas visitas a países da Europa,
como Portugal, França, Itália, Espanha, Suiça. Mas uma coisa que não
posso deixar de notar é a quantidade de livrarias na França, na Itália,
em Portugal. Na Suiça, encontrei oferta de livros a céu aberto, como
também em Veneza. Em Portugal existe uma livraria que atravessa
uma quadra inteirinha. São livrarias enormes, verdadeiros templos de
cultura. E a gente encontra pessoas lendo sentadas à beira do Tejo, na
Praça do Comércio, aos pés da Torre de Belém, perto do Monumento
dos Descobridores, nos gramados e nos bancos das praças, no metrô,
no trem, nos ônibus, etc. Na França também são muitas as livrarias. Na
Itália, até em Veneza, apesar das “cales” estreitas, elas são numerosas.
Em algumas das vielas vi diversas, uma ao lado da outra.
Em Roma, ao lado do nosso hotel tínhamos uma e, na volta do
jantar, à noite, havia como que um auditório nela e um clube de leitura
estava em plena atividade. Então leitura é uma coisa que faz parte do
dia a dia dos europeus e pode ser até que o número de livrarias não
pareça muito grande para quem vive ali, mas comparado ao que temos
no Brasil, a diferença é bem gritante.
Cultura é um diferencial no velho mundo, com certeza. A
história secular de algumas cidades, ou milenar, como os casos de
Roma e Veneza e algumas outras, é uma coisa que marca a gente.
Não há como andar em Veneza, em Roma, sem pensar que estamos
pisando em chão que foi pisado por personagens dos mais importantes
da história do mundo.
A cultura que se respira, que se pode testemunhar em lugares
históricos, em cidades e monumentos tombados como patrimônios da
humanidade é uma coisa que impressiona sobremaneira.
A viagem de trem, de Roma para Genebra, principalmente
depois de Milão, é de uma beleza indescritível. As vinhas, em
Montreau, Sion e outras cidades pelo caminho, lembram o Douro,
em Portugal. Mas há lagos, há os picos nevados, há a arquitetura, há
também as árvores que lá ficam com as folhas mais amarelas do que
em Portugal.
Viver essas visões, essas sensações, absorver toda essa beleza
e toda essa informação e toda essa cultura não tem preço. É uma
experiência única.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

O LIVRO E O SEU DIA



Por Luiz Carlos Amorim - Escritor, editor e revisor, Fundador e presidente do Grupo Literário A ILHA, com 35 anos de trajetória, cadeira 19 na Academia SulBrasileira de Letras. http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br

O dia 29 de Outubro foi o Dia Nacional do livro. Que esse dia sirva para que nós todos, leitores e escritores, reflitamos sobre o futuro da literatura em nossa cidade, no nosso estado, no nosso país. Se não houver leitores, os livros não serão mais publicados, pois as editoras não resistirão e cessarão suas atividades, como já vem acontecendo com algumas delas. Então há que se repensar a educação neste nosso precário país, há que resgatá-la, há que cobrarmos atenção dos nossos governantes, tão relapsos até aqui, para com o ensino do primeiro grau, para que ele ganhe uma estrutura decente e seja melhor assistido e apoiado, para que os leitores em formação venham a adquirir o hábito da leitura.
O ensino fundamental, que é parte intrínseca da educação de nossas crianças, precisa de conteúdo programático apropriado, de professores qualificados, de escolas com manutenção e com equipamentos necessários. Para que os estudantes aprendam, efetivamente, a ler e a escrever e possam descobrir nos livros tudo o que eles podem oferecer.

O livro é o registro da nossa civilização, é a perenidade da palavra, não interessa se ele é tradicional, impresso em papel, ou electrónico, ou áudio. Um livro fechado, não lido, não existe. O livro só existe quando é lido, quando é recriado pelo leitor.

De maneira que precisamos levar nosso livro até o leitor, precisamos levar nossa obra até o leitor em formação, que está nas escolas, para que tenhamos mais e bons leitores um pouco adiante. Para que possamos comemorar um bom Dia do Livro em anos próximos. Porque o livro é o maior e mais importante instrumento para registrar, veicular, perenizar e transmitir conhecimento. Foi sempre assim e continuará sendo.

domingo, 25 de outubro de 2015

QUANTA SAUDADE



      Por Luiz Carlos Amorim - Escritor, editor e revisor, Fundador e presidente do Grupo Literário A ILHA, com 35 anos de trajetória, cadeira 19 na Academia SulBrasileira de Letras. http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br

Quanta saudade cabe em um dia? Ouvi isso, outro dia, em um comercial e fiquei pensando a respeito. Lembrei da nossa pinscher Xuxu, que quando a gente saía, ficava o dia inteiro no portão, sentada perto da grade da garagem, esperando a gente. Podia estar frio, ela podia estar com fome ou com sede, mas não arredava pé. Minha mãe ficava admirada com isso, quando ficava em casa para cuidar dela. Quando a gente chegava, era uma festa só, com latidos, correrias, lambidas, etc.
Dá pra medir a quantidade da saudade que se sente? Tenho saudades de lugares, de coisas que vivi, mas tenho mais saudades de pessoas. E também pergunto: quanta saudade cabe em um dia, em uma semana, em um mês, em um ano, em uma vida?
Tenho saudades da minha filharada, que cresceu e foi embora e deixou uma casa enorme para trás, que insiste em me lembrar que minhas meninas não são mais crianças, que agora têm as próprias casas, tão longe da nossa.
Tenho saudades da nossa primeira filha, Vanessa, que chegou, há muitas primaveras, e logo se foi, tão rápido. Mas dói como se tivesse sido ontem, embora a saudade se acumule há muitos, muitos anos.
Tenho saudades dos meus irmãos, mais dos que já se foram, tenho saudades da minhas avós, dos meus avôs, de amigos queridos que foram conhecer o outro lado da vida ou estão muito longe para que possamos vê-los e abraçá-los.
Tenho saudades de mim, da criança que fui, em tempos idos. Tenho saudades de meus outros eus. Preferia, às vezes, não ter saudades, mas a saudade é a prova maior de que vivemos bons momentos, de que fomos felizes. De maneira que quanto mais saudades temos, tanto mais felizes temos sido ou estamos sendo.
Então que venha a saudade, que sempre cabe mais uma pequena felicidade nas nossas vidas, até uma saudade bem grande, muito grande, que vai acabar se transformando em uma enorme saudade.