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quarta-feira, 28 de julho de 2010

EU E OS JACATIRÕES

Recebi um texto de um amigo escritor de Joinville, e como pedi a ele para usar a crônica como prefácio em uma próxima edição do meu novo livro "Terra: Planeta em extinção", vou transcrevê-lo abaixo. O livro faz parte da coleção Letra Viva, publicada em comemoração ao trigésimo aniversário do Grupo Literário A ILHA e Jurandir também faz parte, assim como Célia e Mary.

JACATIRÕES CULTURAIS

Jurandir Schmidt

Cícero, o mais eloquente dos oradores romanos, ditou este conceito: “O estudo e a contemplação da natureza, é o alimento natural da inteligência e do coração”.
Eloquente, também é o meu amigo Luiz Carlos Amorim, embora redigir seja o seu maior campo de trabalho. Existem homônimos, mas este é natural de Corupá, uma bela cidade catarinense de natureza exuberante e destacada por suas grutas e cachoeiras. Formado pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Joinville, contabiliza um intenso período literário e educacional, tendo vários livros publicados e com participações em antologias nacionais e estrangeiras, possuindo ainda trabalhos em jornais, revistas e portais da internet.
Por saber que a natureza é uma imensa formação artística vegetal, ela tem forte influência em suas redações e uma de suas obras preferidas é o jacatirão (Tibouchina mutabilis), também denominada de manacá-da-serra. Seu florescer espetacular que inicia branco, no segundo dia fica lilás e no terceiro violáceo, desperta o ontem, o hoje e o amanhã deste meu amigo, revelando a saudade, a realidade e a esperança de seus sentimentos. Sabendo mostrar e valorizar os momentos de vida, o jacatirão registrou-se em sua mente e de imediato enraizou-se até o coração, sobrevivendo mesmo quando a temporada floral dá lugar a outras espécies. Parece que ele enxerga em cada pétala uma letra, em cada flor uma palavra e em cada ramo uma sentença, como um livro aberto de páginas oscilantes.
Viajar pela cultura do país é uma de suas necessidades e quando os caminhos estão ladeados de jacatirões, a felicidade é ainda maior. Esta árvore não apresenta raízes agressivas, permitindo seu plantio em diversos espaços, possuindo as mesmas estruturas das palavras do meu amigo: não são agressivas e podem ser lidas e utilizadas sem qualquer restrição.
Para muitas pessoas, o aprendizado termina quando recebe os méritos de alguma realização pessoal, muitas vezes sem a análise dos resultados finais. Para o Amorim, as realizações são apenas o início para outros estudos e aprendizado, que se renovam tal qual a floração do jacatirão e de outras plantas. Muitas delas estão perto do seu convívio familiar, em um jardim ecologicamente correto, onde desfruta do ensinamento de cada vegetal ali cultivado. Nunca dispensa o professorado da natureza e nem dela se utiliza descontroladamente, pois aprendeu que ela não se produz exclusivamente à vontade de seus discípulos.
Assim, meu amigo vai subsistindo aos dias, escrevendo pelos caminhos seus ideais cultivados, preservados, observados e sempre focados na liberdade de expressão. Sempre desejou solos férteis e com menos obstáculos para as pessoas trilharem, preferencialmente, repletos de jacatirões floridos, independente das cores apresentadas e dos sentimentos despertados.

domingo, 18 de abril de 2010

ENTREVISTA

Hoje apenas transcrevo a entrevista que alunos da Escola E.B. Jorge Lacerda, de Joinville, fizeram comigo, resultante de vários trabalhos que fizeram, baseados em meus livros "Aphrodite e as Cerejeiras Japonesas" e "Flecha Dourada". A professora, uma das heroínas do nosso ensino público, que encontra espaço na grade curricular para dar aulas de Literatura - e boas aulas, é Mariza Schiochet.

-Qual o seu sentimento ao passar numa rua cheia de ipês floridos?
Resposta: É um sentimento de encantamento, como eu disse numa crônica recente, "As flores da Páscoa", na qual falo de outra árvore florida e da qual transcrevo um trecho:
"Fico encantado com as manchas vermelhas que as quaresmeiras deixam na mata, nos jardins, nas beiras das estradas. Mas não é um encantamento comum, simples, é um encantamento mágico, pois meus olhos são atraídos pelas cores das pétalas vermelhas e lilazes, no meio do verde, e meu olhar flutua em direção a elas, como se minha alma seguisse com ele em direção às cores. E então meus olhos brilham, como faróis, e o raio de luz é o canal de ligação com meu coração.É assim que me sinto encantado com a generosidade das flores do jacatirão, encantamento que envolve meu olhar, minha alma, meu coração.Pois então não sou filho da terra, irmão gêmeo da natureza, como a árvore de jacatirão? "

- Desde quando você é apaixonado pelas árvores?
Resposta: Desde sempre, penso. A partir do momento que me dei conta de que elas nos dão tudo: o ar que respiramos, abrigo, alimento, cor e beleza.

Por que você se apaixonou pelos ipês e o que eles mudaram na sua vida?
Resposta: Eu gosto de toda árvore, principalmente florida. Gosto até da silveira, que dá flores brancas e simples, sem cor nenhuma. Gosto do ipê, do flamboiã, da primavera, de tantas outras árvores, mas gosto muito, muito do jacatirão. As flores do jacatirão, humildes e singelas, me ensinaram a ver a beleza da natureza.

- O que você tenta passar para as pessoas com a crônica "Minhas Árvores?
Resposta: Tento passar aquilo que, como vejo no trabalho que realizaram, vocês rapidamente perceberam: precisamos preservar a natureza. E preservar a natureza é tratá-la como se fosse alguém das família, pois sem natureza não há futuro. Se a agredirmos, ela com toda razão se rebelará, se defenderá, como estamos vendo tão frequentemente, em face do descaso e irresponsabilidade do homem em relação a ela.

- Você transforma suas palavras em atitudes, como em SOS?
Resposta: Sim, procuro cuidar da natureza que está a minha volta e tento difundir a idéia de preservação do meio-ambiente para que cada um faça a sua parte.

- O que você faz para "colorir de esperança essa terra esquecida"?
Resposta: Tento abrir os olhos das pessoas para a beleza da natureza, pois há quem olhe e não veja. E temos que nos conscientizar de que o nosso planeta é a nossa casa, e que o ar que respiramos depende do verde que tivermos. Se não pudermos respirar, se não tivermos água, nossa casa não existirá.

- Você ajuda ou participa de algum projeto que preserve o meio ambiente?
Resposta: Como disse lá em cima, minha arma é a palavra. É com ela que vou a público, em jornais e revistas e através da internet, para alertar as pessoas de que a natureza precisa de cuidado e atenção, que sem isso ela deixará de existir.

-Você já organizou um sarau poético?
Resposta: Já, muitos, principalmente aí em Joinville. Fazíamos saraus na praça Nereu Ramos, na feira de Arte e Artesanato, em escolas, festas e bares. Os lançamentos de livros, aí em Joinville, quase sempre acabavam em sarau. Hoje eu participo mais do que organizo.

- Em que lugares são mais frequentes as apresentações de saraus poéticos?
Resposta: em bares e em entidades culturais, como associações, bibliotecas, teatros, etc. Qualquer lugar onde haja mais de uma pessoa que goste de poesia, pode acontecer um sarau. Há muito poucos declamadores entre nós e os saraus favorecem o aparecimento de pessoas que sabem dizer, interpretar um poema.

- O que te inspira mais profundamente ou qual foi o motivo maior pra você fazer o poema Festa das Flores?
Resposta: As cores que se espalham pela cidade de Joinville, pois o que mais me inspira é a natureza. E também dar aos seus cidadãos um texto que traduzisse o orgulho que cada um de nós tem por ela.

- Ao longo da sua carreira você escreveu vários poemas. Qual te marcou mais e que te inspira até hoje?
Resposta: Há alguns poemas dos quais gosto mais, como "Simplicidade", "Procura", "Chama" e outros, mas "O Nome da Flor" marca um momento da minha vida que seria de realização e no entanto transformou-se na maior perda.

- Com quantos anos você começou a escrever crônicas?
Resposta: Na verdade eu comecei escrevendo contos, com cerca de quatorze anos. Logo em seguida enveredei pela crônica, sem nem mesmo saber o nome do gênero. E atualmente é o gênero mais popular, pois todo jornal e toda revista traz um pouco de crônica em suas páginas.

- Como surgiu a inspiração para escrever o livro "Aphrodite e as Cerejeiras Japonesas"?
Resposta: Na verdade, eu escrevo as crônicas todos os dias. Depois de um período - um ano ou mais - faço uma seleção e reúno em livro. A inspiração, mesmo, é na hora de escrever cada crônica.

- Como você era na escola?
Resposta: Eu gostava das aulas de português e o incentivo para escrever veio justamente daí. Eu tinha boas notas nas redações e ganhei um concurso do gênero quando tinha 12 anos.

- Você acha importante que, na infância, as crianças tenham liberdade e ar puro e árvores para brincar?
Resposta: Acho fundamental. Como esperar que as crianças saibam o valor da natureza, se não conviverem com ela? Minhas filhas passaram a infância aí em Joinville, no Parque Versalhes, perto da Expoville, e puderam usufruir de liberdade e verde. Hoje as casas estão invadindo a área verde que havia lá, o que é uma pena. Tinhamos até um casal de tucanos que era nosso vizinho, na mata ao lado e vinha comer frutas em nosso quintal.

- Como as pessoas podem fazer para ter cidades que cresçam com a natureza ao lado e não percam essa qualidade de vida?
Resposta: Para isso precisaríamos ter governantes mais preocupados com o futuro e precisaríamos ter uma educação ecologicamente mais apropriada. Vocês estão no caminho certo, têm bons professores, estão lendo bastante. Aproveitem isso.

- Você já esteve em Portugal, conforme uma das crônicas do livro. Qual foi o motivo da sua viagem?
Resposta: Sempre tive curiosidade de saber das semelhanças e diferenças dessa terra longínqua de gente dos quais descendemos e que fala a mesma língua que nós. Então, uma vez aposentado, pude dispor de tempo para fazê-lo. É muito interessante.

- O porquê do título "Portugal meu avozinho"?
Resposta: o primeiro prêmio literário que ganhei, quando tinha uns 12 anos, foi por uma redação sobre Portugal, e o tema era "Portugal meu avozinho". Então achei que encaixaria bem, já que Portugal é como que um avô do nosso Brasil.

- No que você pensava quando fez o poema “Poesia Viva?
Resposta: Eu pensava no quanto Quintana representa para a Literatura Brasileira, ele que dedicou a vida dele às letras. Pensava que precisamos divulgar a obra dele, que é um patrimônio do povo brasileiro.

- A crônica é principal gênero que pratica?
Resposta: Pois então. Eu escrevo crônicas desde garoto, comecei com o conto, enveredei pela poesia e me fixei na crônica, que é sempre atual e é um dos gêneros mais populares atualmente. Em qualquer jornal ou revista você encontra crônicas. Este que vocês leram, "Aphrodite...", é o sexto livro de crônicas. E há um outro vindo por aí.

- Você pensa em escrever outros livros?
Resposta: Sim, tenho um de crônicas mais intimistas para sair este ano e também um de contos de natal. Além de um só de textos sobre Corupá, minha terra natal.

- Você teve dificuldades em vender seus livros?
Resposta: Bem, alguns deles foram publicados por editoras, então elas é que ficam encarregadas de distribuir. "Vida, Vida" - contos, "Uma questão de amor" - poemas, "A Cor do Sol" - poemas, "Borboletas nos Jacaatirões", "A Nova Literatura Catarinense" e "Livro de Natal" foram publicados por editoras e alguns ainda estão no catálogo de algumas delas ou de livrarias como Saraiva, Catarinense, Livros & Livros e Clube de Autores (http://www.clubedeautores.com.br/) e outros estão esgotados. Com aqueles livros de edição própria eu consegui reaver o que investi neles.

- Você sempre gostou de ler?
Resposta: Sim, desde muito jovem eu sempre li muito. E recomendo, pois literatura é fonte de conhecimento.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

LITERATURA - FATOR DE INTEGRAÇÃO E IDENTIFICAÇÃO

Ao escrever, ao produzir literatura, o autor espera, com certeza, que o público se manifeste, de preferência, satisfeito com a sua obra. Mas ele tem que esperar – e aceitar, também - as críticas e o desagrado, que o que agrada a um leitor pode não agradar a outro.
Logo após o lançamento do meu segundo livro de contos, recebi vários cumprimentos – verbalmente, por telefone, por carta, por todos os meios, de pessoas que fizeram questão de se pronunciar a respeito, dar a sua opinião. Excelente, pois o termômetro para medir a qualidade do nosso trabalho é o leitor. Passado algum tempo da euforia do lançamento, recebi outras duas ligações que se destacaram e me fizeram escrever esta crônica: a primeira, de uma pessoa que eu não conhecia e que, tendo comprado o livro, ligou para dizer que se identificou com a verossimilhança dos meus textos, que gostou da maneira como abordei a realidade do cotidiano das personagens – personagens que poderiam existir do lado de cá, de fora dos livros. E um outro, de outra pessoa que eu também não conhecia, muito zangada, indignada, até, porque num dos contos havia uma personagem com características e situações que guardavam semelhança com alguém de sua família.
O mais importante disso é a comprovação de que as pessoas estão comprando livros e estão lendo o que compram. Talvez isso não esteja acontecendo, ainda, com a freqüência que desejaríamos, mas já está acontecendo. Se o leitor entra em contato com a gente para comentar o obra, é porque realmente leu o livro. Devagar, com bons livros, com boas aulas de leitura e literatura nas escolas, boas bibliotecas, boa literatura infantil – coisa que com certeza temos em nosso país – e, principalmente, colocando a criança em contato com livros desde muito cedo, vamos conseguindo atenuar aquela história de que brasileiro não lê. Poderia ler mais, se o preço do livro fosse menor, mas existem as bibliotecas municipais, de escolas, de associações, de clubes, existem os sebos e as feiras, existem as coleções de literatura clássica e contemporânea nas bancas, onde ou não se paga nada para emprestar o livro ou se paga bem menos para adquiri-lo.
E se nós, autores, levarmos até o leitor uma literatura que se identifique com ele, que tenha mais em comum com ele, que divida com ele espaço, tempo e costumes, sem que com isso tenha que colocar de lado a criatividade e a imaginação, estaremos colocando o livro mais perto do público consumidor e o distanciando de pseudo-literaturas que grassam por aí.
É verdade que chegar até o leitor não é fácil, pois publicar um livro esbarra em diversos e enormes obstáculos: as editoras publicam quase que exclusivamente autores consagrados, best sellers e “enlatados” (importados). A edição própria é muito cara, pois papel e impressão são itens bastante caros e a distribuição é inexistente.
Resta a democracia da Internet, que tem possibilitado a publicação e projeção de muitos novos poetas e escritores. O meio eletrônico é barato e de fácil acesso. Há também a publicação de antologias pelo sistema de cooperativa, onde os autores se reúnem, dividem despesas, resultados e trabalho: selecionando textos, organizando a antologia, escolhendo gráfica para impressão, fazendo lançamentos e colocando o livro debaixo de braço para oferecê-lo. O preço do custo do livro é dividido entre os autores que publicarão nele e o número de exemplares publicados, idem.
A divulgação dos autores novos ou regionais é muito pequena, os veículos de comunicação não dão a cobertura esperada para motivar o autor a continuar produzindo ou o leitor a procurar ler. Aos poucos, no entanto, esse cenário parece que vai mudar. A Internet, como já dissemos, está aproximando mais o autor e o leitor. Grandes jornais estão conseguindo voltar a publicar cadernos ou páginas que falam de literatura, embora em alguns casos esses cadernos e/ou páginas sejam rotulados de “variedades” ou “cultura”, por abrigarem também outro tipo de arte e as famigeradas colunas sociais ou de fofocas.
As revistas e jornais literários sobrevivem, ainda que as edições impressas tenham diminuído muito – muitos deles têm apenas edição eletrônica ou virtual, o que já é alguma coisa. – o importante é que a publicação exista. Embora nada substitua o papel impresso, obviamente.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

AS LIVRARIAS TRADICIONAIS E AS NOVAS LIVRARIAS

Por Luiz Carlos Amorim - Escritor - Http://www.prosapoesiaecia.xpg.com.br

Assisti, novamente, ao filme “Mensagem para você”, uma comédia leve, divertida, quase verossímil. Não que seja um grande filme, mas ele mostra, como cenário do romance das personagens principais, a ascensão de uma livraria e a queda de outra.
Há duas cenas marcantes no filme, pelo menos para mim. A primeira é a visão da livraria tradicional, com dezenas de anos de existência naquele lugar, vazia, no apagar das luzes, no cerrar das portas, depois de ter sido esmagada pela mega-store dos livros que fora inaugurada perto dela. A livraria, com as prateleiras vazias, deserta, apenas com a dona olhando em derredor, relembrando os bons tempos quando vendiam livros para toda a comunidade, é de uma solidão e uma tristeza infinitas. Quase comparável à incomensurável solidão do menino robô de “Inteligência Artificial”.
A outra cena é o oposto da primeira: a dona da livraria tradicional, que tivera a sua casa fechada, visitando a mega-livraria que roubara seus clientes-leitores. Passeando pela seção de livros infantis, ela viu crianças, muitas crianças, algumas de pé nas prateleiras, outras sentadas às mesas, outras sentadas pelo chão, todas folheando livros. A visão daquelas crianças em meio àquela imensidão de livros parecia quase redimir a super-livraria de ter causado a sua queda.
Essas duas imagens me chamaram a atenção por serem antagônicas e ao mesmo tempo semelhantes. Explico: a livraria tradicional, aquela que conhecia todos os clientes, a família desses clientes, vendia os livros para todos da família, desde a criança menor, começando com o livro infantil, praticamente sem texto, contando histórias quase que apenas com ilustrações, passando pelos estudantes, com os livros didáticos e juvenis, até os pais, com os livros técnicos, literários, religiosos, etc. Essa livraria chamava os clientes-leitores pelos nomes, sabia o que cada um gostava e por isso dava um atendimento personalizado, mais que isso, amigável.
Hoje, as mega-livrarias já não conseguem essa quase intimidade com o leitor, mas tem muito mais variedade e espaço para oferecer. É claro que, falando em variedade, deveríamos falar também em qualidade, mas o conteúdo dos livros publicados atualmente é assunto para outra crônica. Quanto ao espaço, há mais conforto nas grandes lojas de livros atuais e elas ainda oferecem produtos diferenciados, como o café, o chá, o lanche, o birô de informática, com internet, etc.: elas se transformaram no que muitos de nós, leitores de carteirinha, esperávamos há muito tempo – ponto de encontro de leitores (e por que não de escritores?) para comentar obras lidas, dar e receber indicações de leitura, trocar idéias, fazer amizades.
Eu ainda preferiria a livraria antiga, aquela em que a gente era amigo do dono, mas reconheço que a evolução pode e deve ser benéfica. Se considerarmos que o livro rompeu a barreira das paredes da livraria convencional e foi se colocar à disposição do leitor nas bancas de revistas (por preços menores!), nos supermercados, farmácias e até nas caixas automáticas, feito jornal, na rua, a transformação pela qual as casas de livro passaram e estão passando é natural.
Uma coisa com a qual continuo não concordando é o preço do livro: ele ainda é um produto – de primeira necessidade – muito caro. Digo de primeira necessidade, porque todos nós precisamos dos livros para estudar, para aprender, para adquirir o conhecimento mínimo necessário desde os primeiros anos das nossas vidas.

sábado, 3 de outubro de 2009

PRÊMIOS CIDADE DE MANAUS – QUE FIM LEVARAM?

Por Luiz Carlos Amorim (Escritor – Http://www.prosapoesiaecia.xpg.com.br )

A quarta edição (2009) dos Prêmios Cidade de Manaus, um dos mais importantes concursos literários do Brasil, foi lançada em dezembro de 2008, inclusive com publicação do regulamento no Diário Oficial de Manaus.
Os prêmios seriam atribuídos, como nas edições anteriores, nas seguintes categorias: melhor romance ou novela; melhor livro de contos; melhor livro de poesia; melhor livro de crônicas; melhor texto teatral para adultos; melhor texto de teatro infantil; melhor livro de ensaio socioeconômico; melhor ensaio sobre tradições populares (folclore); melhor ensaio histórico; melhor ensaio sobre literatura (Letras); melhor ensaio sobre artes-plásticas; melhor ensaio sobre cinema; melhor livro de memória; melhor ensaio sobre dança; melhor texto de jornalismo literário; melhor livro de Literatura Infantil.Os prêmios, no valor de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) seriam conferidos a cada uma das categorias acima citadas, ficando, ainda, as obras premiadas inscritas no programa editorial do Conselho Municipal de Cultura para publicação, até a concessão da premiação subsequente. As inscrições ficaram abertas até abril de 2009 e o regulamento anunciava que o resultado seria publicado no dia 1º de outubro de 2009 no Diário Oficial de Manaus. Hoje é dia 3 e em nenhum das edições do Diário Oficial da cidade existe qualquer menção ao concurso Prêmio Cidade de Manaus. Telefonei, no dia 2, ontem, para a Prefeitura de Manaus e tentei falar com a Secretaria de Cultura ou com a Fundação Municipal de Cultura, mas falei com três pessoas e ninguém soube me dar qualquer informação. Vou tentar, ainda, falar com a Diretora da Fundação, que em janeiro publicou o seguinte comunicado à imprensa e aos vencedores dos Prêmios Cidade de Manaus: “Em face da mudança na Prefeitura Municipal de Manaus, advinda das últimas eleições em 2008, comunicamos que a atual diretoria do Conselho Gestor do Fundo Municipal de Cultura descompatibilizou-se colocando todos os cargos à disposição da nova administração. Contudo, a continuidade da premiação e a devida publicação das obras vencedoras serão honradas pela atual secretária de cultura Lívia Regina do Prado Negreiros Mendes. Comunicamos ainda, aos interessados, que as inscrições para a quarta versão dos Prêmios Literários Cidade de Manaus, já estão abertas desde o dia 03 de dezembro através de edital publicado no Diário Oficial do Município, com prazo se estendendo até o dia 30 de abril de 2009.As inscrições devem ser feitas no horário das 8 às 16:00 h, ou através dos Correios, seguindo o que está disposto no edital. Secretaria Municipal de Cultura - Prêmios Literários Cidade de ManausAv. Sete de setembro, 384 - 69.005-140 MANAUS AM - Telefone para informação: (92) 3215-3458E-mail: liviareginanegreiros@hotmail.com “
Quem sabe ela, a diretora da Fundação de Cultura, Lívia Regina Prado de Negreiro Mendes, que colocou a sua palavra em jogo, garantindo a continuidade do certame, possa esclarecer o que houve.
É incrível que ninguém na prefeitura que promove o concurso soubesse dar uma informação, inclusive na própria Fundação de Cultura. Alguns nem sequer sabiam que o concurso existia.
E é um desrespeito para com os escritores que participaram desta edição dos Prêmios Cidade de Manaus, que parece ter sido abandonado, mesmo com o compromisso de honra assumido pela prefeitura, ao lançar o concurso, publicando-o no Diário Oficial da cidade.

domingo, 13 de setembro de 2009

LITERATURA E HUMANIDADES

Por Luiz Carlos Amorim (Escritor – Http://www.prosapoesiaecia.xpg.com.br )

Recebi, recentemente, um pedido de doação de livros meus. Até aí, tudo bem, isso acontece de vez em quando, professores pedem livros para usar em sala de aula, entidades quase sempre beneficentes tentam conseguir acervo para começar ou manter bibliotecas em escolas, asilos, orfanatos, etc.
Mas desta vez o pedido foi para uma campanha em prol de pessoas carentes. A pessoa que me pediu os livros se reuniu com outras para conseguir banheiros, oito deles, que serão montados em casas de famílias do bairro Promorar 2, de Itajaí. Para angariar os recursos necessários, imaginaram pedir livros a escritores, livrarias, editoras, que conseguindo um aqui, outro acolá, vão juntando até poder fazer lotes com sete livros, para oferecer a amigos e empresários.
Não é original? Eu diria que é fantástico. Usar a literatura para conseguir ajuda e possibilitar que famílias com baixo poder aquisitivo tenham banheiros em suas casas, conforto mínimo a que elas têm direito.
Tomando conhecimento desse tipo de ação, fico animado e penso que pode haver uma luz no fim do túnel, que nem tudo talvez esteja perdido. Há quem ainda se preocupe com o próximo, apesar dos maus exemplos que a maioria dos “políticos”, aqueles que mandam nesse país, infelizmente, insistem em dar constantemente.
Vou mandar alguns livros para essas pessoas que estão catando a obra dos escritores da terra para transformá-la em um benefício talvez maior que o prazer de ler e de beber na fonte da imaginação e do conhecimento que é o livro. Porque além de ajudar quem precisa, essa campanha estará divulgando a obra daqueles que se juntarem a ela, pois os livros serão lidos por um público que, de outra maneira, talvez não viesse a ler alguma coisa da nossa lavra.

sábado, 5 de setembro de 2009

LIVRO: PRAZER E CONHECIMENTO

Por Luiz Carlos Amorim (Escritor – http://www.prosapoesiaecia.xpg.com.br/ )

Ensinar literatura nas escolas de primeiro grau implica levar o aluno a ter o prazer de ler - não significa obrigá-lo a ler. Se ali não conseguirmos incutir-lhes o gosto pela leitura, o problema será muito maior quando estiverem no ensino médio: lerão, quando muito - e por obrigação - apenas resumos e orelhas dos livros.

A literatura é o registro da realidade, de costumes, espaço e tempo de um povo, ainda que visto por ângulos diferentes e aí reside a sua riqueza. Ela sempre estará associada à alguma realidade: são realidades verdadeiras, realidades possíveis ou apenas imagináveis, dependendo do que o leitor conseguir recriar.

Porque sabemos que a obra literária existe enquanto lida, enquanto está sendo recriada pelo leitor. E cada leitor pode recriá-la com nuances diferentes, pessoais. Essa é a característica mais marcante da literatura ficcional. A emoção do autor, ao produzir seu texto, não será, necessariamente, a mesma do leitor ao recriá-la.

Então a leitura nos provoca emoções, nos dá referência, faz-nos refletir, pode mudar nossa maneira de pensar e até de agir. Ela é viagem pelo desconhecido é aquisição de conhecimento, é aprendizado e exercício de criatividade, é experiência adquirida. Isso é literatura e é isso que os nossos leitores em formação precisam ir buscar nas páginas de um livro. Ou de vários. O ensino da literatura dividindo-a em "escolas", acaba fazendo-a parecer, para o estudante, uma coisa velha, ultrapassada, sem utilidade imediata. Faz a produção literária parecer algo que é feito a partir de receitas, como se fosse um bolo, sem originalidade, sem criatividade.

Literatura é arte, por isso não pode ser tratada como uma disciplina estanque, precisa ser explorada como algo dinâmico e estimulante, algo que vai acrescentar subsídios para o crescimento do leitor.

sábado, 4 de julho de 2009

A LITERATURA NO CINEMA BRASILEIRO

Por Luiz Carlos Amorim (Escritor – Http://br.geocities.com/prosapoesiaecia )

Ao ver, faz algum tempo, um DVD que alguém trouxe para casa, fiquei feliz em constatar a crescente qualidade da produção cinematográfica brasileira. “Tainá” e outros filmes mais recentes já haviam começado essa constatação, mas ainda me mantinha arredio.
Falo de “Deus é Brasileiro”, baseado no conto “O santo que não acreditava em Deus”, de João Ubaldo Ribeiro, interpretado por Antônio Fagundes, Paloma Duarte e Wagner Moura – que está também em “Carandiru”.
Um time de atores excelentes, um ótimo diretor – Cacá Diegues -, uma história singular, abordando um tema delicado de maneira original e bem brasileira. Um Deus que não gosta de fazer milagres, que está de saco cheio da sua criação – o ser humano, e quer tirar umas férias, mas precisa de um substituto.
Quem não viu o filme, ainda, deve ver, que corre o risco de gostar. Se não quiser ver o filme, que leia o conto, do “Livro de Histórias” de Ubaldo, que depois dessa edição do extinto Circulo do Livro passou a se chamar “Já Podeis da Pátria Filhos”. Melhor, mesmo, é ler o conto e ver o filme, pois se o conto já é bom, o filme tem muito mais cor e sabor, até porque o roteiro, a adaptação é do próprio autor da obra, João Ubaldo, junto com Cacá Diegues.
Um seriado americano que passou na TV a cabo, “Joana of Arcádia”, bebe na mesma fonte. Coincidência ou não, o seriado conta a história de uma menina que vê Deus e conversa com Ele, que aparece na pele de pessoas comuns, diferente a cada aparição. Diferente do Deus de Ubaldo, o Deus de Joana a usa para ajudar a resolver problemas de quem está precisando de ajuda, realizando pequenos milagres por tabela.
Bom ver que o cinema brasileiro está recuperando a excelência de outros tempos. Tenho visto outros filmes mais recentes produzidos aqui e é muito bom constatar neles qualidades crescentes tanto nos roteiros, na fotografia, como na direção e interpretação.